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Quando a Montis assumiu a responsabilidade de gerir 100 hectares do baldio de carvalhais, era uma associação sem quaisquer recursos e o cenário era o de quase cem hectares de giestal resultante de um fogo há mais ou menos dez anos.
Sem qualquer gestão o que se poderia esperar era a repetição de fogos mais ou menos de dez em dez anos, seguida de uma forte recuperação do giestal, acompanhado de uma tímida recuperação de outra vegetação: algum salgueiral se iria instalando nas zonas mais favoráveis próximas de linhas de água, algum carvalhal se iria instalando, muito devagar, condicionado pela falta de outros carvalhos que pudessem alimentar a chegada de bolota ao solo e posterior germinação de forma a que, no fogo seguinte, os carvalhos tivessem mais de quatro anos e, por isso, fossem resistindo. Estes carvalhos levariam o seu tempo a ficar adultos, e dar bolota eles próprios, até porque o ciclo de fogo em torno dos dez anos iria atrasar o seu desenvolvimento (embora não o impedisse).
O primeiro plano de intervenção que fizemos reconhecia esta realidade, reconhecendo também a escassez de recursos da Montis, e por isso prevíamos intervir essencialmente nos dois hectares mais próximos de linhas de águas com maior potencial, quer fomentando a retenção de solo e humidade, quer fazendo alguma estacaria, com o objectivo de aumentar a velocidade de recuperação dos salgueirais.
Rapidamente percebemos também o problema da falta de origem de sementes e por isso começámos a usar a sementeira directa de bolota, um método muito barato, de baixa eficiência, é certo, com o claro objectivo de diminuir o tempo necessário para ter mais produtores de bolotas (e outras sementes) no terreno.
Com a possibilidade de ter alguns recursos (em especial, com o apoio da ACHLI), optámos por queimar controladamente vinte hectares, para criarmos oportunidades de gestão, isto é, uma área em que podíamos entrar, avaliar e usar de acordo com as características do terreno.
Nesses vinte hectares intensificámos a sementeira directa e os trabalhos de retenção de solo e diminuição da torrencialidade e, quando surgiu a oportunidade de plantar árvores (apoio da Mossy Earth, da comunidade portuguesa na Califórnea, da EDP Renováveis, da SIGMETUM, entre outros), optámos por plantações muito densas, nas áreas com maior probabilidade de sucesso, isto é, solos mais fundos, com mais matéria orgânica e mais húmidos.
O programa de intervenção prevê hoje um fogo controlado de quatro em quatro anos (nos mesmos locais, havendo três locais que são queimados de forma rotativa) o que significa que as árvores serão ainda muito novas na altura em que se queimará de novo a área.
Na realidade a opção não é entre arder ou não arder, a opção é entre arder num fogo controlado, da forma que queremos, na altura do ano que queremos, com a intensidade que queremos, preservando o que queremos, ou deixar acumular o combustível até ao momento em que um fogo intenso, de Verão, feito nas condições mais desfavoráveis, irrompe pelo terreno, fazendo recuar muito mais profundamente o processo de regeneração dos sistemas (embora sem o anular).
Essa é a razão para queimar de quatro em quatro anos, não permitindo a acumulação excessiva de combustível, gerindo o intervalo entre fogos com o objectivo de obter carvalhais densos, o mais depressa possível, como forma de controlar passivamente os matos e aumentar a diversidade biológica, para além do valor social e, espera-se, o valor económico do baldio.
A situação actual é que se vê nesta fotografia cedida pela Plantar 1 Árvore, que nos tem ajudado na gestão, e o pequeno carvalho que vem em frente ao Matt, da Mossy Earth e do Miguel, da Plantar 1 Árvore, terá, naturalmente, de competir com o desenvolvimento do mato nesta área que ardeu em Fevereiro de 2017, tendo recuperado da forma que se vê e que irá continuar até ao Outono/ Inverno de 2020/ 2021, altura em que faremos um novo fogo controlado.
Para aumentar a vantagem do carvalho face ao mato concorrente, e para lhe dar maior probabilidade de não ser afectado pelo fogo controlado (e, consequentemente, por um fogo descontrolado), estamos agora a iniciar uma operação de corte de vegetação na envolvente próxima das árvores (provenham elas da regeneração natural, da sementeira ou das plantações), num raio até 50 centímetros, vegetação que deixaremos a cobrir o solo para diminuir a perda de humidade do solo (libertando lentamente nutrientes, mas com pouco efeito de curto prazo).
Em 2019 repetiremos a operação, na medida das nossas possibilidades, claro, com o apoio de quem nos queira ajudar e em 2020, preparando o fogo desse Outono/ Inverno, faremos o mesmo mas afastando o material combustível uns 20 a 30 centímetros do tronco da pequena árvore (nessa altura, esperamos nós, já menos pequena), de forma a que o fogo que façamos, já de si de muito baixa intensidade, não chegue a afectar as árvores mais pequenas, esperando-se que resistam e, no fogo controlado de 2024/ 2025, já tenham dimensão para conviver com o fogo sem risco de maior.
Naturalmente não é nos cem hectares que podemos fazer isto, estamos a falar de áreas bastante limitadas no conjunto da área sob nossa gestão, mas se este modelo de gestão funcionar, e é preciso dar a devida importância à incerteza contida neste “se”, provavelmente teremos estabelecido bosquetes relevantes num prazo de dez anos, bosquetes esses que aumentam enormemente a origem de sementes para o resto da área, aumentando assim a velocidade de recuperação dos sistemas mais complexos: povoamentos maduros de espécies capazes de produzir sombra suficientemente densa para controlar o crescimento dos matos e ser albergue de maior diversidade biológica.
Esta é apenas uma das linhas de trabalho que temos, talvez a mais importante neste momento.
Se resultar, como esperamos, é bem possível que tenhamos contribuído para demonstrar que não temos de nos resignar a optar entre o modelo comercial de produção intensiva de árvores ou um padrão de fogo guiado pelo abandono e pelo acaso, de muito baixo valor social, esperando longos anos pela recuperação dos sistemas naturais que, ainda assim, vai lentamente ocorrendo.