print
Decorreu no passado dia 23 de Junho de 2018, em Carvalhais, Concelho de São Pedro do Sul, com o apoio do Prémio ICNF, Fundo Ambiental, o Colóquio da Montis dedicado ao tema “Das Pedras aos Carvalhais”.
No colóquio reflectiu-se sobre o caminho que está a ser trilhado pela Montis na gestão de 100 hectares do Baldio de Carvalhais com o objectivo de transformar uma paisagem muito homogénea, altamente inflamável e de baixo interesse para a conservação da natureza, dominada por um coberto quase contínuo de giestas com mais de dois metros de altura, numa paisagem mais heterogénea, mais resiliente ao fogo e mais biodiversa, com manchas significativas de carvalhais maduros.
Com esta finalidade, no auditório da Junta de Freguesia de Carvalhais e durante o período da manhã, ouviram-se vários palestrantes.


Carlos Aguiar, do Instituto Politécnico de Bragança, falou sobre sucessão ecológica e o seu papel na transformação da paisagem e descreveu como diversas comunidades que são etapas na sucessão ecológica são compostos por diferentes tipos de plantas e contêm diferentes valores de diversidade biológica e diferentes interesses na conservação da natureza. Foram especificados alguns dos processos e etapas da sucessão ecológica em curso no baldio.
Aldo Freitas, da Ecosalix, sistematizou o que é engenharia natural e quais os seus principais tipos e ferramentas de intervenção, mostrando exemplos da sua aplicação em anteriores atividades da Montis nos terrenos do baldio e em outros territórios. No baldio, têm-se desenvolvido oficinas dedicadas ao tema e aplicados diversas técnicas, como a construção de gabiões de pedras para reduzir a velocidade das águas e o recurso a estacaria de salgueiros para ajudar a estabilizar as linhas de água, entre outras. Pode ver e ouvir como foi esta apresentação aqui: https://www.facebook.com/montisacn/videos/1034779666698577

Avelino Rego, mostrou o caminho que está a ser trilhado nos Baldios da Freguesia de Alvadia, Concelho de Ribeira de Pena, na Serra do Alvão, para alcançar um desenvolvimento sustentável desse território. Ali, é o pastoreio e a exploração pecuária que são a chave para ajudar a âncorar a população, funcionando ao mesmo tempo como ferramenta de gestão da paisagem que potencia a prevenção de incêndios de grandes proporções e contribui para a conservação da natureza.
Matthew Davies, pela Mossy Earth, apresentou o seu modelo de ação em que agem como mediador entre um público alargado e projectos de gestão da áreas naturais, captando recursos que são direcionados para o financiamento de ações concretas no terreno. É exemplo o Baldio de Carvalhais onde têm sido um importante parceiro da Montis no financiamento da plantação de árvores e, num futuro breve, da gestão de áreas que venham a ser ‘apadrinhadas’ por seus clientes. Pode ver e ouvir como foi esta apresentação aqui: https://www.facebook.com/montisacn/videos/1034798993363311
Henrique Pereira dos Santos, da Montis, teve a dupla tarefa de falar sobre o plano de gestão seguido pela Associação e, de forma mais pormenorizada, sobre o plano de fogo controlado nele incluído e em execução no baldio, neste caso em substituição de António Salgueiro do GIFF – Gestão Integrada de Fogos Florestais, especialista em fogo controlado, que infelizmente, por motivos de força maior, não conseguiu estar presente. Reflectiu-se sobre o papel e valor do voluntariado e envolvimento da sociedade civil de forma direta e presencial nas ações de gestão e discutiram-se, ainda, os resultados alcançados até ao presente e as opções para o futuro. Pode ver e ouvir como foi esta apresentação aqui: https://www.facebook.com/montisacn/videos/1034805766695967
A tarde foi dedicada a fazer uma visita aos terrenos no baldio. Em várias paragens, até porque o calor apertava, foi sendo feita uma leitura da paisagem e identificando várias das plantas com que nos cruzávamos. Visitámos as duas áreas de fogo controlado e averiguámos o sucesso da plantação deste Outono/ Inverno. Discutiram-se os próximos passos na gestão, incluindo o plano de fogo controlado regular que se quer executar nas áreas já plantadas.
Estas foram algumas das plantas que tivemos oportunidade de ver e identificar no terreno, com a ajuda do Carlos Aguiar: Deschampsia flexuosa; Agrostis curtisii; Agrostis capillaris; Linaria triornithophora; Teucrium scorodonia; Myosotis stolonifera.
Entre os participantes houve alguma surpresa com a velocidade de recuperação do sistema após o fogo controlado. Na primeira área alvo de fogo controlado, além da grande cobertura de solo, este mostrava poucos sinais de erosão e um elevado conteúdo de matéria orgânica. Estas evidências do baixo impacto do fogo controlado chocam com o preconceito que muitos temos em relação ao fogo. Ali foi possível verificar, e utilizando uma comparação comum, que assim como na cozinha a temperatura do lume é diferente se se quer cozer, estufar ou fritar, também o impacto do fogo na paisagem depende da sua temperatura, sendo muito menor em fogos controlados de baixa temperatura.
Quer após as apresentações, quer durante o almoço, quer durante a visita ao baldio à tarde, a discussão entre os presentes, público e palestrantes, foi sempre um dos pontos fortes do dia, dando oportunidade ao esclarecimento de dúvidas, partilha de experiências, a questionarem-se decisões e a discutir-se e avaliar-se o caminho trilhado até ao presente e as futuras ações de gestão pensadas. Quanto custa fazer um fogo controlado por hectare? Como se compara com um desmatamento manual em termos de resultado e custo? Estas e outras perguntas animaram a discussão ao longo do dia e foram uma grande mais valia para os participantes.
Foi um dia produtivo de partilha, discussão e aprendizagem.
A Montis organiza sozinha ou em parceria, uma média de dois colóquios por ano, em locais diferentes e sobre diversos temas relacionados com o seu trabalho. Abaixo pode relembrar os temas, datas e locais dos anteriores colóquios.
“Economia da Biodiversidade” – 22 Novembro 2014, São Pedro do Sul
“As pessoas da Natureza” – 23 Maio de 2015, Fornelo do Monte, Vouzela
“Gestão de Habitats” – 28 Novembro 2015, Santa Cruz, Oliveira de Frades
“As invasoras e a malta” – 8 Outubro 2016, Valadares, São Pedro do Sul
“A Sustentabilidade na Prática”  – 26 Maio 2017, Olivais, Lisboa
“Gestão de Espécies Invasoras em Portugal – Onde estamos e para onde queremos ir?” 11 Julho 2017, Escola Superior Agrária de Coimbra, Coimbra
Pedro Lérias